Acorda assustado, cheio de dores, com o tornozelo inchado e com fome. O sol queimava, e o relógio indicava quase meia tarde.
"que merda fui fazer...", começa a se arrepender da impulsividade com que agira. Tanto tempo levara pensando em como fazer isso, e agora se sentia só e meio desesperado.
"que merda, sair assim e agora posso morrer de sede e inanição"
Levanta-se com apoio do cajado improvisado, caminha por uma hora, e a respiração fica difícil, com a garganta seca. Consegue chegar a uma estrada, e caminha mais lentamente. Mais meia hora, e aponta uma carroça, que pára sem mais, Lenoir se atira dentro dela sem perguntas.
O condutor lhe oferece água, e olha o pé machucado, "tem tratar isso, moço". "Isso é óbvio", pensa Lenoir, e em voz alta, "sim, assim que chegar na próxima cidade... qual é a próxima cidade?".
O carroceiro o olha com desconfiança. Mas, acima de tudo, ajudar o pobre, tão sujo e com um aspecto tão deplorável. "vamos pra minha casa, você pode comer e tomar um banho". O viajante agradece, se recolhe em pensamentos, desejando encontrar também um telefone em funcionamento.
Tem sorte. Desce da carroça com a ajuda do homem, e ao ver o aparelho na sala, pede para usar. Querendo se livrar do imprevisto hóspede, o dono da casa assente imediantamente.
O telefone dela, mudo. "Querida...", como queria ouvir a voz dela. O número dois em importância, John; também mudo. O número três, Wolf, o atende pronto. Tentam se entender por meio de senhas, um pouco complicado, mas, ao final fica entendido que Wolf tentará chegar onde o outro está até o dia seguinte.
"quer que chame um médico?"
"não tenho dinheiro"
"então toma esse remédio, é pra dor, pelo menos ajuda"
"se puder passar a noite aqui, amanhã um amigo vem me buscar"
"te levo pra cidade, e te deixo num hotel. Com essa guerra..."
Lenoir entende o medo do camponês. Fica contente com a ajuda, agradece, e depois de banho tomado e jantar, recebe um pacote de alimentos e os dois seguem de carroça pra cidade. O automóvel fica estacionado, "economizar gasolina, com a guerra..." explica o sábio camponês.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
23. Sobre as tarefas de Zita
Deixando a amiga dormir, Zita revê a lista de coisas a arrumar: leite condensado, carimbos, roupas, perucas, plástico, cola, estiletes, mimeógrafo,...
Sai cedo, faz a feira, disfarçadamente entrega um bilhete a um menino; vai ao consultório médico de sempre, enquanto a atendente verifica se há horários, pede licença e usa o telefone do consultório.
"Oi, sou eu. Você vai receber o endereço. Segue pra lá e leva o pacote pro segundo ponto marcado."
Desliga, agradece a atendente, deixando uma consulta marcada pra 30 dias.
A idade fazia de Zita a segurança em pessoa. Quase chegando aos setenta anos, tinha conhecido a mulher em uma festa de bairro. A amizade nasceu por caminhos difíceis, pois a personalidade forte das duas as fazia digladiarem constantemente. Disso nasceu um respeito mútuo, que se enraizou na sinceridade e na afinidade política.
Zita não era uma militante do cotidiano; aposentada, vivia de orientar leituras aos mais jovens, e muitas vezes acolhia a mulher quanto esta mergulhava em dias tristes. A mais jovem chegava, colocava Orishas no toca-CD, deitava-se no sofá com uma lata de leite condensado, e as vezes contava histórias, outras vezes ouvia as histórias.
Foi assim que Zita soube de Bu, de Lenoir, de Wolf; foi em dias assim que as duas construíram teorias sobre o porvir, e acharam que deviam ir se preparando para uma ofensiva da direita.
A mulher ouviu e aprendeu da vida de Zita. Os amores, as dores, os equívocos, as culpas, os desejos de morte e de vida, e admirava como a avó levava a vida cheia de jovialidade, sem medo do fim.
Zita não tinha filhos, um acidente a havia deixado estéril muito jovem; com isso, deixou o amor de sua vida livre para escolher ficar com ela ou não; cheia de dores, viu seu amor partir chorando por perdê-la, e quando o chamou de volta soube que ele realmente queria estar livre dela. Ele a culpou pelo fim da relação, e nunca mais se falaram.
Desde então ela se apegara aos livros. Teve amantes casuais, feriu e foi ferida, e nunca mais recuperou aquele tipo de felicidade. Conhecer a mulher que agora acolhia como filha fôra um alento. Sofriam juntas, brigavam riam, compartiam a vida dentro do possível.
A abuela chorava ainda seu amor perdido, mas, tinha convicção política como poucos. A clareza da conjuntura fizera dela uma destacada conselheira, e a experiência de vida a fazia uma estrategista como poucos.
Tempos antes as duas tinham planejado esse dia. A senha. As ações. As saídas. Até agora, tudo caminhava relativamente dentro do conforme. Menos a prisão de Wolf.
Depois de feitas as compras, Zita partiu em busca de onde estaria Wolf, descobrindo com relativa facilidade, voltou á feira e entregou outro bilhete a outro menino, com indicação do hospital e de como proceder.
Voltando a casa, observa disfarçadamente o policial que vigia, esbarra com ele e reclama da artrite, dando-lhe um simpático sorriso.
Sai cedo, faz a feira, disfarçadamente entrega um bilhete a um menino; vai ao consultório médico de sempre, enquanto a atendente verifica se há horários, pede licença e usa o telefone do consultório.
"Oi, sou eu. Você vai receber o endereço. Segue pra lá e leva o pacote pro segundo ponto marcado."
Desliga, agradece a atendente, deixando uma consulta marcada pra 30 dias.
A idade fazia de Zita a segurança em pessoa. Quase chegando aos setenta anos, tinha conhecido a mulher em uma festa de bairro. A amizade nasceu por caminhos difíceis, pois a personalidade forte das duas as fazia digladiarem constantemente. Disso nasceu um respeito mútuo, que se enraizou na sinceridade e na afinidade política.
Zita não era uma militante do cotidiano; aposentada, vivia de orientar leituras aos mais jovens, e muitas vezes acolhia a mulher quanto esta mergulhava em dias tristes. A mais jovem chegava, colocava Orishas no toca-CD, deitava-se no sofá com uma lata de leite condensado, e as vezes contava histórias, outras vezes ouvia as histórias.
Foi assim que Zita soube de Bu, de Lenoir, de Wolf; foi em dias assim que as duas construíram teorias sobre o porvir, e acharam que deviam ir se preparando para uma ofensiva da direita.
A mulher ouviu e aprendeu da vida de Zita. Os amores, as dores, os equívocos, as culpas, os desejos de morte e de vida, e admirava como a avó levava a vida cheia de jovialidade, sem medo do fim.
Zita não tinha filhos, um acidente a havia deixado estéril muito jovem; com isso, deixou o amor de sua vida livre para escolher ficar com ela ou não; cheia de dores, viu seu amor partir chorando por perdê-la, e quando o chamou de volta soube que ele realmente queria estar livre dela. Ele a culpou pelo fim da relação, e nunca mais se falaram.
Desde então ela se apegara aos livros. Teve amantes casuais, feriu e foi ferida, e nunca mais recuperou aquele tipo de felicidade. Conhecer a mulher que agora acolhia como filha fôra um alento. Sofriam juntas, brigavam riam, compartiam a vida dentro do possível.
A abuela chorava ainda seu amor perdido, mas, tinha convicção política como poucos. A clareza da conjuntura fizera dela uma destacada conselheira, e a experiência de vida a fazia uma estrategista como poucos.
Tempos antes as duas tinham planejado esse dia. A senha. As ações. As saídas. Até agora, tudo caminhava relativamente dentro do conforme. Menos a prisão de Wolf.
Depois de feitas as compras, Zita partiu em busca de onde estaria Wolf, descobrindo com relativa facilidade, voltou á feira e entregou outro bilhete a outro menino, com indicação do hospital e de como proceder.
Voltando a casa, observa disfarçadamente o policial que vigia, esbarra com ele e reclama da artrite, dando-lhe um simpático sorriso.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
22. Do descanso de Pedro
Deixando os turnos de vigilância da casa de Zita organizados, Pedro já tinha distribuído dois grupos para verificarem os endereços tirados das anotações dela, e agora podia deixar-se estar em casa.
Não dormia a mais de quarenta e oito horas, e a adrenalina já não era reposta. Olhou-se no espelho, tentando recordar as horas depois da declaração da guerra. Tropas de deslocando, refugiados em toda parte, e ele perdendo e recuperando ‘sua’ mulher.
Está feliz por a ter novamente baixo vigilância. Ela era chave para completar o quadro de vermelhos na região.
Ademais, havia a Legião Estrangeira. Ele tivera acesso ao manifesto da Legião meses antes, e era claramente comunista. Ela tinha ajudado a escrever o manifesto, disso tinha certeza. Todavia, não lograra avançar nas investigações nessa direção. A indecisão sobre o papel de Lenoir, o mapa dos membros ativos das organizações vermelhas, lhe haviam tomado o maior tempo. O resultado eram as várias prisões de primeira hora.
No processo de vigiá-la, ele tivera êxito além do esperado, e conseguira promoções a muito desejadas. Sabia de cor e salteado a ofensiva que o governo lançara contra as organizações populares, e tinha intuído que era só a preparação do caminho da guerra.
Deitado na cama, a imagem dela lhe incomoda. Não era bonita, mas... era forte. Tinha o rosto marcado, alguns vincos se aprofundavam, denunciando, muito mais que a idade, os anos de maus tratos. Tinha um cabelo longo, sempre despenteado, quando muito preso num rabo-de-cavalo. Apesar da idade, tinha as pernas fortes, e adorava vê-la subindo escadas, aos saltos, como se voasse.
Ele tinha reconstruído a biografia dela. Sabia das surras que ela tinha levado e das que tinha dado. Sabia das cicatrizes que a marcavam, que faziam a pele imperfeita.
Com o tempo, começara a respeitá-la. Tinha uma inteligência peculiar, era briguenta, fazia amigos e inimigos quase ao mesmo tempo, era teimosa e convicta. Isso não encaixava...
No sonho, os dois se encontravam, num lugar estranho, que parecia uma barriga de baleia.
Despertou com o rádio dando notícias. O sol já estava se pondo. Banho, barba, arma, distintivo.
Segue pra delegacia, recebe a descompostura do chefe pelo problema com Wolf, agradece mentalmente a situação de guerra, que faz a importância das coisas ser relativa, e toma os relatos da guarda da casa de Zita.
A mulher saíra pela tarde. Comprara alguma coisa sem importância, passeara pelo museu, passara na biblioteca central, sacara pouco dinheiro. Nada importante.
Pedro segue para o posto de guarda. Chama o agente que está na campana.
“Quanto tempo de inatividade?”
“Duas horas, senhor”
“Vá pra casa”
Assume a vigilância. Imagina quando ela irá sair, se irá buscar Tornado, se irá encontrar Lenoir... “onde tá esse maldito?”
Não dormia a mais de quarenta e oito horas, e a adrenalina já não era reposta. Olhou-se no espelho, tentando recordar as horas depois da declaração da guerra. Tropas de deslocando, refugiados em toda parte, e ele perdendo e recuperando ‘sua’ mulher.
Está feliz por a ter novamente baixo vigilância. Ela era chave para completar o quadro de vermelhos na região.
Ademais, havia a Legião Estrangeira. Ele tivera acesso ao manifesto da Legião meses antes, e era claramente comunista. Ela tinha ajudado a escrever o manifesto, disso tinha certeza. Todavia, não lograra avançar nas investigações nessa direção. A indecisão sobre o papel de Lenoir, o mapa dos membros ativos das organizações vermelhas, lhe haviam tomado o maior tempo. O resultado eram as várias prisões de primeira hora.
No processo de vigiá-la, ele tivera êxito além do esperado, e conseguira promoções a muito desejadas. Sabia de cor e salteado a ofensiva que o governo lançara contra as organizações populares, e tinha intuído que era só a preparação do caminho da guerra.
Deitado na cama, a imagem dela lhe incomoda. Não era bonita, mas... era forte. Tinha o rosto marcado, alguns vincos se aprofundavam, denunciando, muito mais que a idade, os anos de maus tratos. Tinha um cabelo longo, sempre despenteado, quando muito preso num rabo-de-cavalo. Apesar da idade, tinha as pernas fortes, e adorava vê-la subindo escadas, aos saltos, como se voasse.
Ele tinha reconstruído a biografia dela. Sabia das surras que ela tinha levado e das que tinha dado. Sabia das cicatrizes que a marcavam, que faziam a pele imperfeita.
Com o tempo, começara a respeitá-la. Tinha uma inteligência peculiar, era briguenta, fazia amigos e inimigos quase ao mesmo tempo, era teimosa e convicta. Isso não encaixava...
No sonho, os dois se encontravam, num lugar estranho, que parecia uma barriga de baleia.
Despertou com o rádio dando notícias. O sol já estava se pondo. Banho, barba, arma, distintivo.
Segue pra delegacia, recebe a descompostura do chefe pelo problema com Wolf, agradece mentalmente a situação de guerra, que faz a importância das coisas ser relativa, e toma os relatos da guarda da casa de Zita.
A mulher saíra pela tarde. Comprara alguma coisa sem importância, passeara pelo museu, passara na biblioteca central, sacara pouco dinheiro. Nada importante.
Pedro segue para o posto de guarda. Chama o agente que está na campana.
“Quanto tempo de inatividade?”
“Duas horas, senhor”
“Vá pra casa”
Assume a vigilância. Imagina quando ela irá sair, se irá buscar Tornado, se irá encontrar Lenoir... “onde tá esse maldito?”
21. Da reintegração de Wolf
“Melhor não esperar o velho chegar aqui pessoalmente.”
Wolf se rendera ao cansaço, e ainda jazia inerte no chão da sala do delegado.
“Dêem uma ajeitada nele, e façam como mandei. Sem erros!”
Dois soldados o levam ao banho, limpam um pouco do sangue, e carregam num carro civil. Rodam até um hospital mais distante, o deixam nas proximidades e partem.
O sangramento havia parado, e a limpeza parcial feita pelos policiais não lhe quitara o horrível aspecto. Logo foi recolhido por dois trabalhadores que, obrigados á voltar à normalidade, se dirigiam ao trabalho em hora inusual.
A cidade voltava ao movimento. Comercio reabria, todos os serviços funcionavam. Havia restrições no uso da internet e telefone, mas, nada que afetasse o “cidadão normal”. Algumas notícias sobre prisões de elementos perigosos, que trabalhavam para os “maus”. Parte da população de acordo, guerra é guerra e não se pode perdoar quem seja leal ao inimigo.
Uma pequena parte do povo estava convencida de que a guerra era o melhor, assim iam se livrar de vez do risco de pobreza que o Sul representava. Aquele quadro de miséria incomodava, especialmente porque o Norte parecia caminhar justo nesse sentido, com perdas de direitos trabalhistas e aumento da fome e da violência.
“Tem que acabá com esses pobre”, se ouvia em algum canto. O desejo inerente de acabar com a pobreza, bem orientado pela mídia interessada em manter o status quo, se tornava o desejo de acabar com as pessoas.
Wolf foi examinado superficialmente pelos plantonistas, e levado ao quarto para atendimento adequado, assim que descobriram o cartão de visitas do avô, deixado pelo delegado em seu bolso.
Ele aproveitou para dormir. Despertou sob o olhar acusador de Joana, quando o sol já passava do meio do céu. “Preciso voltar ao porão”, o primeiro pensamento.
Ademais de um respeitado professor universitário, ele tinha um avô em um alto cargo militar, distante o suficiente para não brigar diariamente, perto o suficiente pra tirá-lo da cadeia e depor em favor de sua lealdade ao eixo do PP (Paz e Progresso).
Sua ficha policial não existia, nunca havia sido nem mesmo multado por nada, nem pelas bibliotecas.
O único vínculo que poderia ser conhecido era seu amor por ela.
Joana lhe pergunta alguma coisa, que ele não ouve. O corpo não dói, entorpecido pelos medicamentos. Quando Joana pára de falar, abre os olhos, ela está saindo do quarto, dando passo ao avô.
“Que fazia correndo na madrugada? “
o semblante feroz, que sempre tinha metido medo, está bem perto. Como quando, poucas vezes, estivera sentado no colo daquele homem que parecia tão distante.
“A vó tinha me chamado...” balbucia.
“Que vó?”
Ele conta a história. O velho militar, viúvo, liga para a mulher, que confirma tudo. Ela estava mal, a guerra devia ter lhe afetado os nervos, e chamara Wolf, que era o único neto que tinha, porque achou que ia morrer. Pedia desculpas pelos incômodos.
“Incômodos???? berra o avô, Ele quase morreu!!! e você vem falar de ‘incômodos’??”
Wolf senta na cama, começa a se vestir.
“Onde vai?”
“Tenho que ir...”
O avô olha o neto detidamente.
“Você não pode sair. Comigo aqui você não sai, precisa se tratar; e esse ferimento, tá bem medicado? Te falaram o que deve usar pra terminar de curar? Deite-se e seja cuidadoso como deve ser um homem”.
O neto não se deita, olha os olhos do avô com suavidade.
“Preciso ir.”
O velho dá meia volta,
“Vou pedir proteção pra você, mandarão um soldado ficar na sua porta, os canalhas que fizeram isso contigo podem voltar, e em tempos de guerra, melhor prevenir”, e sai fechando a porta.
Recobrando força, verifica os curativos, termina de vestir-se, e sai do quarto o mais firmemente que pode, antes que algum soldado apareça.
Wolf se rendera ao cansaço, e ainda jazia inerte no chão da sala do delegado.
“Dêem uma ajeitada nele, e façam como mandei. Sem erros!”
Dois soldados o levam ao banho, limpam um pouco do sangue, e carregam num carro civil. Rodam até um hospital mais distante, o deixam nas proximidades e partem.
O sangramento havia parado, e a limpeza parcial feita pelos policiais não lhe quitara o horrível aspecto. Logo foi recolhido por dois trabalhadores que, obrigados á voltar à normalidade, se dirigiam ao trabalho em hora inusual.
A cidade voltava ao movimento. Comercio reabria, todos os serviços funcionavam. Havia restrições no uso da internet e telefone, mas, nada que afetasse o “cidadão normal”. Algumas notícias sobre prisões de elementos perigosos, que trabalhavam para os “maus”. Parte da população de acordo, guerra é guerra e não se pode perdoar quem seja leal ao inimigo.
Uma pequena parte do povo estava convencida de que a guerra era o melhor, assim iam se livrar de vez do risco de pobreza que o Sul representava. Aquele quadro de miséria incomodava, especialmente porque o Norte parecia caminhar justo nesse sentido, com perdas de direitos trabalhistas e aumento da fome e da violência.
“Tem que acabá com esses pobre”, se ouvia em algum canto. O desejo inerente de acabar com a pobreza, bem orientado pela mídia interessada em manter o status quo, se tornava o desejo de acabar com as pessoas.
Wolf foi examinado superficialmente pelos plantonistas, e levado ao quarto para atendimento adequado, assim que descobriram o cartão de visitas do avô, deixado pelo delegado em seu bolso.
Ele aproveitou para dormir. Despertou sob o olhar acusador de Joana, quando o sol já passava do meio do céu. “Preciso voltar ao porão”, o primeiro pensamento.
Ademais de um respeitado professor universitário, ele tinha um avô em um alto cargo militar, distante o suficiente para não brigar diariamente, perto o suficiente pra tirá-lo da cadeia e depor em favor de sua lealdade ao eixo do PP (Paz e Progresso).
Sua ficha policial não existia, nunca havia sido nem mesmo multado por nada, nem pelas bibliotecas.
O único vínculo que poderia ser conhecido era seu amor por ela.
Joana lhe pergunta alguma coisa, que ele não ouve. O corpo não dói, entorpecido pelos medicamentos. Quando Joana pára de falar, abre os olhos, ela está saindo do quarto, dando passo ao avô.
“Que fazia correndo na madrugada? “
o semblante feroz, que sempre tinha metido medo, está bem perto. Como quando, poucas vezes, estivera sentado no colo daquele homem que parecia tão distante.
“A vó tinha me chamado...” balbucia.
“Que vó?”
Ele conta a história. O velho militar, viúvo, liga para a mulher, que confirma tudo. Ela estava mal, a guerra devia ter lhe afetado os nervos, e chamara Wolf, que era o único neto que tinha, porque achou que ia morrer. Pedia desculpas pelos incômodos.
“Incômodos???? berra o avô, Ele quase morreu!!! e você vem falar de ‘incômodos’??”
Wolf senta na cama, começa a se vestir.
“Onde vai?”
“Tenho que ir...”
O avô olha o neto detidamente.
“Você não pode sair. Comigo aqui você não sai, precisa se tratar; e esse ferimento, tá bem medicado? Te falaram o que deve usar pra terminar de curar? Deite-se e seja cuidadoso como deve ser um homem”.
O neto não se deita, olha os olhos do avô com suavidade.
“Preciso ir.”
O velho dá meia volta,
“Vou pedir proteção pra você, mandarão um soldado ficar na sua porta, os canalhas que fizeram isso contigo podem voltar, e em tempos de guerra, melhor prevenir”, e sai fechando a porta.
Recobrando força, verifica os curativos, termina de vestir-se, e sai do quarto o mais firmemente que pode, antes que algum soldado apareça.
terça-feira, 25 de maio de 2010
20. De como se caminha na noite
Ele cai rolando no meio do capinzal, mas sem conseguir evitar a machucadura no tornozelo. Se levanta cambaleante, respirando com atenção a ver se há costelas partidas, avança pelo mato baixo, e se interna entre o arvoredo.
Ocupados com o trânsito, ninguém nota o homem se afastando.
Logo faz um bastão, e segue devagar, atento a qualquer movimento ao seu redor. Vai de árvore em árvore, no bosque de pinheiros, ofegando pela dificuldade em pisar no solo. "que merda, me machucar justo agora..."
Aproveita a escuridão e caminha, tentando não perder a referência da estrada.
Lenoir se sentia meio perdido, não tinha certeza de o que deveria fazer. A única coisa que sabia era que a amava, e que para sua sensível fragilidade, ela era o porto seguro. Muitas vezes ela era mimada, aparentava fraqueza, mas, ela sempre era capaz de tomar as decisões que para ele custavam tanto. Ela era parada dura quando se tratava de encarar qualquer dor, "dexa pra mim", ela havia dito quando ele ponderava sobre a dor que ia causar em outra pessoa, "dexa comigo, eu seguro a onda". Isso também o irritava as vezes, a segurança com que ela passeava entre os problemas, o desdém que aparentava pela dor, o jeito como desafiava a vida.
Agora, ia tentar chegar até onde imaginava que ela estaria. "Muitos quilômetros...", nem pensara em procurar o comitê da Internacional em sua cidade, agora é que lhe ocorria que o lugar de reuniões devia estar destroçado nesse momento; os companheiros e companheiras não lhe preocupavam, "bando de 'pijos', maleducados, sempre me trataro tão mal... gente maleducada...". No aspecto pessoal, havia comido o pão que o diabo amassou entre aquela gente, cheia de dinheiro e frialdade. Não estava entre os seus, não eram sua gente.
O que o havia prendido alí tanto tempo era o saber-se especial, tinha experiencia de vida muito muito distinta da gente do lugar. Seus anos de militância e a clareza política lhe haviam levado a mudar de cidade, e o romantismo revolucionário o haviam aproximado de uma mulher do lugar. Logo, a realidade trouxe seus defeitos e fraquezas ao cotidiano, apagando a chama apaixonada que os tinha unido. O ideal romântico-estudantil se esborracha frente ao rochedo das dificuldades. O que era gracioso passa a incomodar, e sem profundidade política nem afinidade pessoal, tanto a relação amorosa quanto as relações pessoais com as outras pessoas foi se tornando um inferno.
Agora, caminhando na noite, entre o bosque de coníferas, tenta lembrar o que poderia comer. "Ela saberia...", a mulher que deseja encontrar tinha experiência de campo, e pelo cheiro e pelo sabor, poderia dizer que plantas poderiam ser consumidas.
Sentindo a falta física dela, e imaginando que já alcançara uma zona relativamente segura, se acosta a uma árvore, e fecha os olhos, sonhando com ela.
Ocupados com o trânsito, ninguém nota o homem se afastando.
Logo faz um bastão, e segue devagar, atento a qualquer movimento ao seu redor. Vai de árvore em árvore, no bosque de pinheiros, ofegando pela dificuldade em pisar no solo. "que merda, me machucar justo agora..."
Aproveita a escuridão e caminha, tentando não perder a referência da estrada.
Lenoir se sentia meio perdido, não tinha certeza de o que deveria fazer. A única coisa que sabia era que a amava, e que para sua sensível fragilidade, ela era o porto seguro. Muitas vezes ela era mimada, aparentava fraqueza, mas, ela sempre era capaz de tomar as decisões que para ele custavam tanto. Ela era parada dura quando se tratava de encarar qualquer dor, "dexa pra mim", ela havia dito quando ele ponderava sobre a dor que ia causar em outra pessoa, "dexa comigo, eu seguro a onda". Isso também o irritava as vezes, a segurança com que ela passeava entre os problemas, o desdém que aparentava pela dor, o jeito como desafiava a vida.
Agora, ia tentar chegar até onde imaginava que ela estaria. "Muitos quilômetros...", nem pensara em procurar o comitê da Internacional em sua cidade, agora é que lhe ocorria que o lugar de reuniões devia estar destroçado nesse momento; os companheiros e companheiras não lhe preocupavam, "bando de 'pijos', maleducados, sempre me trataro tão mal... gente maleducada...". No aspecto pessoal, havia comido o pão que o diabo amassou entre aquela gente, cheia de dinheiro e frialdade. Não estava entre os seus, não eram sua gente.
O que o havia prendido alí tanto tempo era o saber-se especial, tinha experiencia de vida muito muito distinta da gente do lugar. Seus anos de militância e a clareza política lhe haviam levado a mudar de cidade, e o romantismo revolucionário o haviam aproximado de uma mulher do lugar. Logo, a realidade trouxe seus defeitos e fraquezas ao cotidiano, apagando a chama apaixonada que os tinha unido. O ideal romântico-estudantil se esborracha frente ao rochedo das dificuldades. O que era gracioso passa a incomodar, e sem profundidade política nem afinidade pessoal, tanto a relação amorosa quanto as relações pessoais com as outras pessoas foi se tornando um inferno.
Agora, caminhando na noite, entre o bosque de coníferas, tenta lembrar o que poderia comer. "Ela saberia...", a mulher que deseja encontrar tinha experiência de campo, e pelo cheiro e pelo sabor, poderia dizer que plantas poderiam ser consumidas.
Sentindo a falta física dela, e imaginando que já alcançara uma zona relativamente segura, se acosta a uma árvore, e fecha os olhos, sonhando com ela.
19. Da base Zita
Toca o interfone, espera longos cinco minutos, e Zita responde.
"Urgência", nem precisava dizer, pois tocar um interfone àquela hora só podia ser emergência.
A dona da casa reconhece a voz, e mais além, esperava desde a manhã ouvir aquela palavra a qualquer momento. Era a senha para o que poderia vir depois, e estava preparada. A mulher sobre a escada de dois em dois degraus, enquanto Zita deixa a porta aberta e vai a janela, no escuro, espiar a movimentação na rua. Vê Pedro ao telefone, na sombra, um ponto iluminado pela tela do celular.
A recém chegada se lança nos braços da velha mulher, e as duas se estreitam, querendo transmitir mutuamente esperança e conforto.
"Filha...", "mama mía!", e se riem entre as lágrimas.
Preparam chá, biscoitos, a mulher toma banho, se veste com roupas de Zita e lava as próprias roupas. O dia vai rompendo, e ela quer saber as notícias.
"Seja forte... - começa Zita - vô começá pelo pior. Bombardearam, em Brasil, a uma mobilização dos campesinos e campesinas; estavam em marcha a três dia, e onte, um dos primero alvos foram eles e elas... morreram quase todos, cerca de quatro mil pessoas...
Acho que esperavam, antes que os países reagissem, acabá com as organização social, facilitando o trabalho dos grupos que tão agindo internamente pra derrocada dos 'país rebelde'."
"Sim, todo mundo sabia que nós era a base forte na construção de otra proposta... depois que conseguimo garanti o pré-sal pro povo, então...", suspira a mulher.
Zita continua, "sim, em todos os país que foram os primero alvo, atacaro também os movimento popular logo de cara. A Internacional tá firme com os governo aliado, e aqui e nos otro país da Aliança pra Paz e Progresso, sabia que se dero esse nome? 'paz e progresso', começando com uma guerra, como é típico... então, aqui e nos otro começaro com as prisão de ocêis... ocê tem que se cuidá, filha..."
"Tenho que dormi, Zita. Você pode ir preparando as coisa?"
"Sim, descansa, descansa. Vô vê tudo que posso dexá pronto."
"Você pode perguntá por Bu?"
Zita a olha sem surpresa. Ela amava Bu, nunca havia duvidado nem escondido.
"Até agora, não tive notícias dele... sinto muito"
A mulher se deita no quarto escurecido pelas cortinas. A ação do chá e do escalda-pés é relaxante. A dor pelos mortos e mortas passa como um filme, e vai calando no coração. Busca na memória alguma música boba que a ajudasse a olhar de longe... "toda vez que falta luz, o invisível salta aos olhos...", "música de almanaque Sadol", como diria Bu. "sobreviva, querido, sobreviva...", e fecha os olhos, sonhando.
"Urgência", nem precisava dizer, pois tocar um interfone àquela hora só podia ser emergência.
A dona da casa reconhece a voz, e mais além, esperava desde a manhã ouvir aquela palavra a qualquer momento. Era a senha para o que poderia vir depois, e estava preparada. A mulher sobre a escada de dois em dois degraus, enquanto Zita deixa a porta aberta e vai a janela, no escuro, espiar a movimentação na rua. Vê Pedro ao telefone, na sombra, um ponto iluminado pela tela do celular.
A recém chegada se lança nos braços da velha mulher, e as duas se estreitam, querendo transmitir mutuamente esperança e conforto.
"Filha...", "mama mía!", e se riem entre as lágrimas.
Preparam chá, biscoitos, a mulher toma banho, se veste com roupas de Zita e lava as próprias roupas. O dia vai rompendo, e ela quer saber as notícias.
"Seja forte... - começa Zita - vô começá pelo pior. Bombardearam, em Brasil, a uma mobilização dos campesinos e campesinas; estavam em marcha a três dia, e onte, um dos primero alvos foram eles e elas... morreram quase todos, cerca de quatro mil pessoas...
Acho que esperavam, antes que os países reagissem, acabá com as organização social, facilitando o trabalho dos grupos que tão agindo internamente pra derrocada dos 'país rebelde'."
"Sim, todo mundo sabia que nós era a base forte na construção de otra proposta... depois que conseguimo garanti o pré-sal pro povo, então...", suspira a mulher.
Zita continua, "sim, em todos os país que foram os primero alvo, atacaro também os movimento popular logo de cara. A Internacional tá firme com os governo aliado, e aqui e nos otro país da Aliança pra Paz e Progresso, sabia que se dero esse nome? 'paz e progresso', começando com uma guerra, como é típico... então, aqui e nos otro começaro com as prisão de ocêis... ocê tem que se cuidá, filha..."
"Tenho que dormi, Zita. Você pode ir preparando as coisa?"
"Sim, descansa, descansa. Vô vê tudo que posso dexá pronto."
"Você pode perguntá por Bu?"
Zita a olha sem surpresa. Ela amava Bu, nunca havia duvidado nem escondido.
"Até agora, não tive notícias dele... sinto muito"
A mulher se deita no quarto escurecido pelas cortinas. A ação do chá e do escalda-pés é relaxante. A dor pelos mortos e mortas passa como um filme, e vai calando no coração. Busca na memória alguma música boba que a ajudasse a olhar de longe... "toda vez que falta luz, o invisível salta aos olhos...", "música de almanaque Sadol", como diria Bu. "sobreviva, querido, sobreviva...", e fecha os olhos, sonhando.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
18. Sobre a delegacia
Direto pra delegacia, sem nenhuma pergunta.
"Tá vivo, né?", "Tá, tá se mexendo".
Chega o delegado.
"Que merda vocêis fizero? puta merda, seus idiota"
Os policiais se olham, sem entender. "Senhor, o elemento tava correndo na rua, e não parou..."
"Vocêis sabem quem é ele? Sabem? Putamerda, que problema... seus idiota, idiota!"
O delegado anda de um lado pra outro, olhando a figura de Wolf no chão, sangrando, um olho inchado.
Antes da chegada do delegado, esperando o amanhecer, os soldados haviam colocado Wolf no corredor de celas dos ultimos que haviam sido presos. Alí estavam Guilhermo e John, nas celas em frente e ao lado. John não podia falar, com dentes quebrados e a boca muito machucada, escrevia algumas palavras com água no chão, e um colega de cela ia lendo. Guilhermo estava em melhores condições físicas.
Falando baixinho, passando notícias de boca em boca, trocaram informações. Quem estava a salvo por enquanto, que encaminhamentos haviam sido tomados, que sugestões cada qual tinha.
Tentando superar as dores, Wolf faz um registro mental de quantos estão alí, quem são, e as idéias dos companheiros. Nunca havia estado numa delegacia. E essa primeira vez estava sendo extremamente dolorosa.
Os presos políticos estavam sendo conduzidos à essa delegacia, o Centro de Inteligência. Imaginava-se que logo iriam levar todos a penitenciárias. Mas, com a situação da guerra...
A tortura havia sido usada livremente desde o primeiro minuto. Todos os presos que alí estavam eram militantes conhecidos; se organizar o povo passa a ser crime, eram todos implicados.
Nos últimos anos, a desigualdade de distribuição de riqueza aumentava mais rapidamente. O mundo tinha tecnologia para diminuir a carga de trabalho de cada pessoa em 80%, e produção suficiente para promover um bem viver em cada cantinho do planeta.
Ainda assim, as taxas de desemprego cresciam, alimentos estragavam em armazéns ou no campo, as terras, a água e a produção de alimentos estavam em mãos de quatro empresas transnacionais.
Doenças da fome se espalhavam, junto com a violência. Um guarda de um bairro rico matou duas mulheres que reviravam o lixo no portão de entrada; milhares de pessoas tomaram o bairro, destruíram as casas e levaram toda a comida; a polícia reprimiu e matou 60 pessoas.
Diversos outros casos se repetiam. A polícia cada vez mais armada, mostrava presença. Os países enriquecidos fecharam as fronteiras para o povo que haviam espoliado durante séculos. Nenhuma negra ou negro entrava na Europa ou Estados Unidos e Canadá.
Os movimentos organizados estavam conseguindo importantes avanços. Lograram construir uma articulação mundial, onde se incluíam governos não submissos. Era assim que caminhavam para o fortalecimento da soberania alimentar em seus países, travando duras lutas contra as empresas transnacionais, e os governos que as serviam.
O poder de ter armas nucleares, desenvolvidas com tecnologia própria, foi o fator que determinou a declaração de guerra. Os países historicamente enriquecidos sobre o sangue dos empobrecidos, cansaram de tentar derrubar Fidel, Evo e Chavez, cansaram de tentar puxar Lula e Hu Jintao definitivamente para seus projetos. A diplomacia não resolvia tudo de modo satisfatório.
Enquanto a guerra aberta era travada, dois movimentos seriam feitos: acabar com as organizações populares nos países da Aliança para a Paz e o Progresso - EUA e União Europeia, basicamente, e aumentar a infiltração e a ação nos países rebelados - América Latina, Africa e Asia.
A propaganda estava sendo veiculada subliminarmente a algum tempo, convencendo as pessoas de que qualquer estrangeiro era uma ameaça, e que os problemas do povo latino, africano ou asiático não eram os mesmos do povo norteamericano ou europeu.
Com o tema do subsídio agricola, tentaram quebrar a aliança que já existia entre campesinos e campesinas de todo o mundo. Com o tema da fome e do desemprego, tentaram convencer de que o problema eram os migrantes, em especial os negros.
Emergido brutalmente dessas reflexões, Wolf foi levado para uma sala da delegacia, deixado no chão, à espera do delegado, que agora o rodeava nervosamente. O ferimento da bala voltara a sangrar.
"que vamo fazê com ele, seu delegado?"
"Tá vivo, né?", "Tá, tá se mexendo".
Chega o delegado.
"Que merda vocêis fizero? puta merda, seus idiota"
Os policiais se olham, sem entender. "Senhor, o elemento tava correndo na rua, e não parou..."
"Vocêis sabem quem é ele? Sabem? Putamerda, que problema... seus idiota, idiota!"
O delegado anda de um lado pra outro, olhando a figura de Wolf no chão, sangrando, um olho inchado.
Antes da chegada do delegado, esperando o amanhecer, os soldados haviam colocado Wolf no corredor de celas dos ultimos que haviam sido presos. Alí estavam Guilhermo e John, nas celas em frente e ao lado. John não podia falar, com dentes quebrados e a boca muito machucada, escrevia algumas palavras com água no chão, e um colega de cela ia lendo. Guilhermo estava em melhores condições físicas.
Falando baixinho, passando notícias de boca em boca, trocaram informações. Quem estava a salvo por enquanto, que encaminhamentos haviam sido tomados, que sugestões cada qual tinha.
Tentando superar as dores, Wolf faz um registro mental de quantos estão alí, quem são, e as idéias dos companheiros. Nunca havia estado numa delegacia. E essa primeira vez estava sendo extremamente dolorosa.
Os presos políticos estavam sendo conduzidos à essa delegacia, o Centro de Inteligência. Imaginava-se que logo iriam levar todos a penitenciárias. Mas, com a situação da guerra...
A tortura havia sido usada livremente desde o primeiro minuto. Todos os presos que alí estavam eram militantes conhecidos; se organizar o povo passa a ser crime, eram todos implicados.
Nos últimos anos, a desigualdade de distribuição de riqueza aumentava mais rapidamente. O mundo tinha tecnologia para diminuir a carga de trabalho de cada pessoa em 80%, e produção suficiente para promover um bem viver em cada cantinho do planeta.
Ainda assim, as taxas de desemprego cresciam, alimentos estragavam em armazéns ou no campo, as terras, a água e a produção de alimentos estavam em mãos de quatro empresas transnacionais.
Doenças da fome se espalhavam, junto com a violência. Um guarda de um bairro rico matou duas mulheres que reviravam o lixo no portão de entrada; milhares de pessoas tomaram o bairro, destruíram as casas e levaram toda a comida; a polícia reprimiu e matou 60 pessoas.
Diversos outros casos se repetiam. A polícia cada vez mais armada, mostrava presença. Os países enriquecidos fecharam as fronteiras para o povo que haviam espoliado durante séculos. Nenhuma negra ou negro entrava na Europa ou Estados Unidos e Canadá.
Os movimentos organizados estavam conseguindo importantes avanços. Lograram construir uma articulação mundial, onde se incluíam governos não submissos. Era assim que caminhavam para o fortalecimento da soberania alimentar em seus países, travando duras lutas contra as empresas transnacionais, e os governos que as serviam.
O poder de ter armas nucleares, desenvolvidas com tecnologia própria, foi o fator que determinou a declaração de guerra. Os países historicamente enriquecidos sobre o sangue dos empobrecidos, cansaram de tentar derrubar Fidel, Evo e Chavez, cansaram de tentar puxar Lula e Hu Jintao definitivamente para seus projetos. A diplomacia não resolvia tudo de modo satisfatório.
Enquanto a guerra aberta era travada, dois movimentos seriam feitos: acabar com as organizações populares nos países da Aliança para a Paz e o Progresso - EUA e União Europeia, basicamente, e aumentar a infiltração e a ação nos países rebelados - América Latina, Africa e Asia.
A propaganda estava sendo veiculada subliminarmente a algum tempo, convencendo as pessoas de que qualquer estrangeiro era uma ameaça, e que os problemas do povo latino, africano ou asiático não eram os mesmos do povo norteamericano ou europeu.
Com o tema do subsídio agricola, tentaram quebrar a aliança que já existia entre campesinos e campesinas de todo o mundo. Com o tema da fome e do desemprego, tentaram convencer de que o problema eram os migrantes, em especial os negros.
Emergido brutalmente dessas reflexões, Wolf foi levado para uma sala da delegacia, deixado no chão, à espera do delegado, que agora o rodeava nervosamente. O ferimento da bala voltara a sangrar.
"que vamo fazê com ele, seu delegado?"
sábado, 22 de maio de 2010
17. Sobre o que é pedra
Com o material selecionado dos cadernos e anotações que havia recolhido no lixo, com listas de endereços, Pedro distribui alguns agentes para começar a caçada.
Os soldados que fizessem a guerra lá fora. Aqui, sua guerra era caçar esses insistentes comunistas que ainda falavam em socialismo. E ia fazer isso com qualidade. “esses merda”.
Nascido em uma família pobre, Pedro havia crescido apanhando dos meninos maiores na escola.
“Trabaia, vadio, trabaia se acha que vai ocê vai tê vida boa”, dizia o pai quase todo dia.
Odiava o pai, odiava trabalhar. Desde muito cedo, vendia picolé na rua, e mentia pra mãe ao entregar apenas uma parte do dinheiro que conseguia.
Do pai, recebia uma surra de socos por semana, fosse porque estava roubando frutas nas feiras, fosse porque o homem tivesse passado da conta na bebida. Da mãe, a comida pronta, a roupa lavada, alguma ajuda nas aulas de língua e literatura, puxões de cabelo, surras com vara de marmelo, gritos e choro.
A mãe gostava de ler, mas, o pai brigava com ela cada vez que a via com um livro na mão. “não tem mais o que fazê, não? Te dô o que fazê”, a mãe chorava escondido, e as vezes sacudia Pedro pelos cabelos para amenizar a raiva e a impotência que sentia.
Ao dar a luz, as complicações do parto levaram o medico a extrair-lhe o útero, optando pelo caminho mais fácil, e a mulher ficou com um único filho.
Em alguns momentos da infância, Pedro cometera o erro de perguntar por quê não tinha irmãos e irmãs. A resposta, nas três ocasiões, havia sido uma surra com vara de marmelo.
O adolescente estudava, os poucos livros que a mãe escondia o levaram à biblioteca pública, e aí devorava historias e mais historias. Algumas delas o convenceram de que devia reagir às injustiças que sofria na escola.
E reagiu.
Nas noites da vila, conheceu um grupo que se reunia para brigar entre si. Chegava em casa tarde, com os olhos roxos, com os lábios partidos, uma vez teve três dedos quebrados; “foi jogo sujo”, apontaram alguns do grupo, mas, não havia o que fazer depois que os ossos estalaram, dobrados pelos adversários.
A ele lhe havia caído bem o estar nos limites. Dentes e costelas passaram a depender de cuidados mais contínuos. Com sorte, nunca teve o pulmão perfurado.
Alguns meses e dentes depois, cada dia mais feio, Pedro se enfrentou a um dos que se divertia em persegui-lo. “Ehhh, fiote de papai!”, provocou. A surra foi tão tremenda, pública e notória que Pedro ganhou fama.
Meninas começaram a dar-lhe espaço. Mas, não queria saber de nenhuma. Só queria estudar, ler e brigar.
Foi ficando forte em sua magreza, se recusava a tomar qualquer anabolizante oferecido por algum amigo, tanto por teimosia e orgulhos, quanto por falta de dinheiro.
Há tempos havia deixado de buscar dinheiro em trabalhos temporários. Quando precisava, tomava de onde fosse mais simples e seguro, fosse o pai, fosse algum desavisado com a carteira mais à mão. Todavia não gostava de roubar.
O sabor do olhar que misturava medo e admiração que recebera ao dar a primeira surra na escola, lhe havia metido a vontade de ser o tal “alguém” que o pai queria. Mas, queria ser um alguém que pudesse continuar sentindo vida afora o prazer de pôr medo nos olhos alheios.
A escolha da profissão chegou por um caminho algo torto. Um dia, rondando um caixa automático, tentando descolar algum trocado, foi levado pela segurança. Andava roto, as vezes sujo, sem dentes. Muito suspeito.
Foi parar na delegacia. Serviu de saco de pancada a policiais e presos. Agüentou firme, não chorou, não reclamou. Apesar da idade, era um homem duro, com corpo curtido pela dor, pela fome e pelo medo. Tanto ler e pensar lhe haviam dado firmeza psicológica. “Dezesseis anos?”, ria o delegado, “ó, só não vai ser mulherzinha porque é muito feio...”
O soltaram logo, sem nenhum registro. Pisou na rua decidido: ia ser polícia.
Agora tinha os dentes recolocados, o cabelo bem cortado, a roupa e o rosto bem tratado favoreciam a beleza que a sujeira, a falta de dentes e cabeleireiro haviam escondido em sua infância e adolescência.
A altivez que transmitia nos olhos encantava e amedrontava as pessoas.
Nunca se havia casado, nunca havia tido um relacionamento de mais de duas semanas com nenhuma mulher. Nenhum amigo tampouco ousava sugerir, nem de brincadeira, que ele fosse homossexual. “mulher é fraca, e fraco pra mim é na ponta da chibata”, respondia quando alguém queria saber das companhias.
Até que foi obrigado a conhecê-la. “Mas, senhor, com a minha formação e experiência...”
Os soldados que fizessem a guerra lá fora. Aqui, sua guerra era caçar esses insistentes comunistas que ainda falavam em socialismo. E ia fazer isso com qualidade. “esses merda”.
Nascido em uma família pobre, Pedro havia crescido apanhando dos meninos maiores na escola.
“Trabaia, vadio, trabaia se acha que vai ocê vai tê vida boa”, dizia o pai quase todo dia.
Odiava o pai, odiava trabalhar. Desde muito cedo, vendia picolé na rua, e mentia pra mãe ao entregar apenas uma parte do dinheiro que conseguia.
Do pai, recebia uma surra de socos por semana, fosse porque estava roubando frutas nas feiras, fosse porque o homem tivesse passado da conta na bebida. Da mãe, a comida pronta, a roupa lavada, alguma ajuda nas aulas de língua e literatura, puxões de cabelo, surras com vara de marmelo, gritos e choro.
A mãe gostava de ler, mas, o pai brigava com ela cada vez que a via com um livro na mão. “não tem mais o que fazê, não? Te dô o que fazê”, a mãe chorava escondido, e as vezes sacudia Pedro pelos cabelos para amenizar a raiva e a impotência que sentia.
Ao dar a luz, as complicações do parto levaram o medico a extrair-lhe o útero, optando pelo caminho mais fácil, e a mulher ficou com um único filho.
Em alguns momentos da infância, Pedro cometera o erro de perguntar por quê não tinha irmãos e irmãs. A resposta, nas três ocasiões, havia sido uma surra com vara de marmelo.
O adolescente estudava, os poucos livros que a mãe escondia o levaram à biblioteca pública, e aí devorava historias e mais historias. Algumas delas o convenceram de que devia reagir às injustiças que sofria na escola.
E reagiu.
Nas noites da vila, conheceu um grupo que se reunia para brigar entre si. Chegava em casa tarde, com os olhos roxos, com os lábios partidos, uma vez teve três dedos quebrados; “foi jogo sujo”, apontaram alguns do grupo, mas, não havia o que fazer depois que os ossos estalaram, dobrados pelos adversários.
A ele lhe havia caído bem o estar nos limites. Dentes e costelas passaram a depender de cuidados mais contínuos. Com sorte, nunca teve o pulmão perfurado.
Alguns meses e dentes depois, cada dia mais feio, Pedro se enfrentou a um dos que se divertia em persegui-lo. “Ehhh, fiote de papai!”, provocou. A surra foi tão tremenda, pública e notória que Pedro ganhou fama.
Meninas começaram a dar-lhe espaço. Mas, não queria saber de nenhuma. Só queria estudar, ler e brigar.
Foi ficando forte em sua magreza, se recusava a tomar qualquer anabolizante oferecido por algum amigo, tanto por teimosia e orgulhos, quanto por falta de dinheiro.
Há tempos havia deixado de buscar dinheiro em trabalhos temporários. Quando precisava, tomava de onde fosse mais simples e seguro, fosse o pai, fosse algum desavisado com a carteira mais à mão. Todavia não gostava de roubar.
O sabor do olhar que misturava medo e admiração que recebera ao dar a primeira surra na escola, lhe havia metido a vontade de ser o tal “alguém” que o pai queria. Mas, queria ser um alguém que pudesse continuar sentindo vida afora o prazer de pôr medo nos olhos alheios.
A escolha da profissão chegou por um caminho algo torto. Um dia, rondando um caixa automático, tentando descolar algum trocado, foi levado pela segurança. Andava roto, as vezes sujo, sem dentes. Muito suspeito.
Foi parar na delegacia. Serviu de saco de pancada a policiais e presos. Agüentou firme, não chorou, não reclamou. Apesar da idade, era um homem duro, com corpo curtido pela dor, pela fome e pelo medo. Tanto ler e pensar lhe haviam dado firmeza psicológica. “Dezesseis anos?”, ria o delegado, “ó, só não vai ser mulherzinha porque é muito feio...”
O soltaram logo, sem nenhum registro. Pisou na rua decidido: ia ser polícia.
Agora tinha os dentes recolocados, o cabelo bem cortado, a roupa e o rosto bem tratado favoreciam a beleza que a sujeira, a falta de dentes e cabeleireiro haviam escondido em sua infância e adolescência.
A altivez que transmitia nos olhos encantava e amedrontava as pessoas.
Nunca se havia casado, nunca havia tido um relacionamento de mais de duas semanas com nenhuma mulher. Nenhum amigo tampouco ousava sugerir, nem de brincadeira, que ele fosse homossexual. “mulher é fraca, e fraco pra mim é na ponta da chibata”, respondia quando alguém queria saber das companhias.
Até que foi obrigado a conhecê-la. “Mas, senhor, com a minha formação e experiência...”
16. De tudo que mais quero na vida
"Tava cansado, viajando o dia todo. Ha muito tempo que não viajava de caminhão, a delícia do vento no rosto somada à agonia de viajá tão incomodamente.
A carroceria tava cheia, não dava pra deitá, mal e mal sentado, e as câimbra me fizeram andá um poco, no que era possível.
Criançada com fome, e meus biscoito se foram. Que merda a guerra, sempre é merda. Com a cidade atingida tão cedo, uma fuga massiva de gente, principalmente mulher e criança.
Meu amor tinha razão. Ela tava ligada nas mobilização militar, mais de arma que de gente; bem verdade que as guerra de hoje, por inquanto, já podem prescindí de grandes exército. Os cara apertam um botão e bum! lá se vai uma cidade pelos ar. Pela TV, gente morta, corpo queimado, criança com fome, nada é chocante demais pra num sê feito, lá longe, só na TV.
Também, a dor e a miséria tão tão no dia-a-dia de todo mundo... chega a sê gozoso ver o sofrimento alheio. Finalmente, esse sofrimento chegô aqui...
“luta de classe, luta de classe”, ai que eu já me aborrecia com a repetição dela. E tava certa o tempo todo, como nossa organização.
Eu que sô um merda.
Por que eu disse que ela era uma egoísta? A cidade onde morei esses ano é uma boa cidade. Tá certo que me matei trabaiando pra pagá conta de aluguel, de transporte, de comida, contas que não me acrescentarum nada. Pelo contrário, foram anos de vida cada vez mais perdendo o sentido de ter vindo, me afastando da organização, que me ajudava a ter uma razão na vida.
Ela me levô de volta... me curô a dor de militante solitário, me recolocô na ativa. Me fez home. Colocô de novo a revolução na minha alma.
Eu que num vi isso. Espero que ela esteja bem...
Mas, a vida era boa... por que eu ia dexá uma relação que me garantia certo status nos círculo que eu gostava, pra sofrê com ela o malfado de classe trabalhadora?
Eu sô um merda mesmo... ó onde eu tava: a minha gente não tava nos lugar onde eu tava... merdamerdamerda. É preciso uma guerra desse tamanho pra eu dexá que essa idéia ficasse concreta.
Se a vida era boa, perto do que podia sê, por que eu ia trocá? O certo pelo duvidoso? Bem que o Marcuse dizia... a gente se amolda à maquina capitalista, tentando desfruta dos beneficio; quem se rebela, paga o preço: pobreza, insegurança...
Até onte eu tava lá, agarrado firme nas migaia, feliz “compartiando” do centro... idiota. Que vida besta eu tava levando.
Acho que era por isso que ela ficava tão distante de eu, as vezes. Tão bom vê ela dormindo... tão bom se ela tivesse aqui...
Meu céu é o corpo dela, macio, firme, forte. E nunca disse isso pra ela, burro, burro, burro.
Opa, barrera... melhor passá longe... uma pena dexá essa carona de tão boa hora...
Amada, quero tá contigo logo. To indo, sobrevive, amada minha!
Ai, meu tornozelo!!! Merda, merda, merda..."
A carroceria tava cheia, não dava pra deitá, mal e mal sentado, e as câimbra me fizeram andá um poco, no que era possível.
Criançada com fome, e meus biscoito se foram. Que merda a guerra, sempre é merda. Com a cidade atingida tão cedo, uma fuga massiva de gente, principalmente mulher e criança.
Meu amor tinha razão. Ela tava ligada nas mobilização militar, mais de arma que de gente; bem verdade que as guerra de hoje, por inquanto, já podem prescindí de grandes exército. Os cara apertam um botão e bum! lá se vai uma cidade pelos ar. Pela TV, gente morta, corpo queimado, criança com fome, nada é chocante demais pra num sê feito, lá longe, só na TV.
Também, a dor e a miséria tão tão no dia-a-dia de todo mundo... chega a sê gozoso ver o sofrimento alheio. Finalmente, esse sofrimento chegô aqui...
“luta de classe, luta de classe”, ai que eu já me aborrecia com a repetição dela. E tava certa o tempo todo, como nossa organização.
Eu que sô um merda.
Por que eu disse que ela era uma egoísta? A cidade onde morei esses ano é uma boa cidade. Tá certo que me matei trabaiando pra pagá conta de aluguel, de transporte, de comida, contas que não me acrescentarum nada. Pelo contrário, foram anos de vida cada vez mais perdendo o sentido de ter vindo, me afastando da organização, que me ajudava a ter uma razão na vida.
Ela me levô de volta... me curô a dor de militante solitário, me recolocô na ativa. Me fez home. Colocô de novo a revolução na minha alma.
Eu que num vi isso. Espero que ela esteja bem...
Mas, a vida era boa... por que eu ia dexá uma relação que me garantia certo status nos círculo que eu gostava, pra sofrê com ela o malfado de classe trabalhadora?
Eu sô um merda mesmo... ó onde eu tava: a minha gente não tava nos lugar onde eu tava... merdamerdamerda. É preciso uma guerra desse tamanho pra eu dexá que essa idéia ficasse concreta.
Se a vida era boa, perto do que podia sê, por que eu ia trocá? O certo pelo duvidoso? Bem que o Marcuse dizia... a gente se amolda à maquina capitalista, tentando desfruta dos beneficio; quem se rebela, paga o preço: pobreza, insegurança...
Até onte eu tava lá, agarrado firme nas migaia, feliz “compartiando” do centro... idiota. Que vida besta eu tava levando.
Acho que era por isso que ela ficava tão distante de eu, as vezes. Tão bom vê ela dormindo... tão bom se ela tivesse aqui...
Meu céu é o corpo dela, macio, firme, forte. E nunca disse isso pra ela, burro, burro, burro.
Opa, barrera... melhor passá longe... uma pena dexá essa carona de tão boa hora...
Amada, quero tá contigo logo. To indo, sobrevive, amada minha!
Ai, meu tornozelo!!! Merda, merda, merda..."
quarta-feira, 19 de maio de 2010
15. Um lobo na história
"complicada e perfeitinha, você me apareceu..." cantarola Wolf, seguindo a mulher. Sente uma mistura de raiva e carinho; a conhece, e sabe que se saiu do porão, é porque realmente precisava.
As vezes não conseguia acompanhar seu raciocínio, mas, confiava na intuição ou razão dela. Tinha alguns anos a mais, e bastante experiência, e ainda assim, ele se sentia especial perto dela. Era uma ouvinte capaz de integrar todas as pessoas.
Há tempos, ela o havia supreendido, lhe dizendo sem rodeios que nutria sentimentos amorosos por ele. Nunca tinha imaginado que ela pudesse se interessar por ele, que então era quase um menino. Ele, preocupado com a imagem perante a família e amigos, lhe tinha proposto amizade, e casou-se com uma moça de seu círculo.
Continuaram amigos, e aprendeu muito. Seguiu a carreira universitária, e numa parceria divertida construiu com ela estratégias de despitar a polícia, nos tempos mais tranquilos. Nunca aparecia publicamente como vinculado aos movimentos, e ela e outros companheiros e companheiras haviam sofrido no lugar dele a repressão.
Muitas vezes lhe doía não poder se declarar público a que lugar político pertencia. Lhe custava manter a imagem de professor universitário neutro.
E muitas vezes ela o havia animado, com as avaliações dos resultados dessa prática. Ele era a pessoa mais livre do grupo, e podia dar suporte a todas e todos nos momentos mais críticos. Mais além, ele era a voz mais ouvida na opinião pública, justamente por não pertencer a nenhum grupo publicamente.
Um dia, na casa dela, se divertindo em construir pistas falsas, deu-se conta da paixão. Não sabia como nem por quê. Ela estava com suas velhas calças de moleton, grandes demais, que lhe caíam tão mal, com uma camiseta surrada, preparando petiscos, quando ele se percebeu desejando-a. Ela, tão desengonçada...
Quis abraçá-la, mas, reprimiu qualquer expressão. Nunca mais a olhou apenas como amiga, e os defeitos dela lhe pareceram ainda mais perdoáveis.
Até que John lhe contou, muito naturalmente, que ela e Lenoir haviam dormido juntos. Seu coração ficou meio paralizado, e começou a se arrepender de não ter tomado nenhuma atitude. "maldito Lenoir...", mas, era seu amigo.
Na madrugada anterior, ao receber o aviso dos ataques, pois que não estava sob vigilancia como os demais e seu telefone funcionava, o primeiro pensamento era se ela estava livre e viva. Decidiu na hora que se declararia a ela, a beijaria, viveria com ela até morrer, custasse o que custasse. Desejou ir ao encontro dela, mas, sabia que era impossível.
Quando ouviu a voz dela na porta do porão, não pensou se Clara alí estava ou não: a tomou nos braços e lhe despejou tudo que sentia. E ela lhe perguntara por Lenoir...
Agora a seguia, querendo protegê-la. Percebeu que o parque estava vigiado. Ou iriam prendê-la, ou iriam segui-la. Decidiu arriscar: ou iriam deixá-lo ir, acreditando em sua história, ou iriam prendê-lo, e tentaria descobrir quem mais estava preso, aproveitando a vantagem de sua posição social para comunicar com os de fora.
Passa por ela, sussurra que fique quieta, e corre pela rua. Ignora os gritos dos soldados, tentando atraí-los para si. Não imaginava que iriam atirar tão cedo; ouve o estampido ao mesmo tempo que sente a dor, vai ao chão, tenta se levantar, "fique onde está, querida...", logo é cercado, três soldados o espancam enquanto perguntam coisas que ele não entende. É levantado e consegue caminhar entre o grupo fardado, tentando ver o que se passava com ela.
As vezes não conseguia acompanhar seu raciocínio, mas, confiava na intuição ou razão dela. Tinha alguns anos a mais, e bastante experiência, e ainda assim, ele se sentia especial perto dela. Era uma ouvinte capaz de integrar todas as pessoas.
Há tempos, ela o havia supreendido, lhe dizendo sem rodeios que nutria sentimentos amorosos por ele. Nunca tinha imaginado que ela pudesse se interessar por ele, que então era quase um menino. Ele, preocupado com a imagem perante a família e amigos, lhe tinha proposto amizade, e casou-se com uma moça de seu círculo.
Continuaram amigos, e aprendeu muito. Seguiu a carreira universitária, e numa parceria divertida construiu com ela estratégias de despitar a polícia, nos tempos mais tranquilos. Nunca aparecia publicamente como vinculado aos movimentos, e ela e outros companheiros e companheiras haviam sofrido no lugar dele a repressão.
Muitas vezes lhe doía não poder se declarar público a que lugar político pertencia. Lhe custava manter a imagem de professor universitário neutro.
E muitas vezes ela o havia animado, com as avaliações dos resultados dessa prática. Ele era a pessoa mais livre do grupo, e podia dar suporte a todas e todos nos momentos mais críticos. Mais além, ele era a voz mais ouvida na opinião pública, justamente por não pertencer a nenhum grupo publicamente.
Um dia, na casa dela, se divertindo em construir pistas falsas, deu-se conta da paixão. Não sabia como nem por quê. Ela estava com suas velhas calças de moleton, grandes demais, que lhe caíam tão mal, com uma camiseta surrada, preparando petiscos, quando ele se percebeu desejando-a. Ela, tão desengonçada...
Quis abraçá-la, mas, reprimiu qualquer expressão. Nunca mais a olhou apenas como amiga, e os defeitos dela lhe pareceram ainda mais perdoáveis.
Até que John lhe contou, muito naturalmente, que ela e Lenoir haviam dormido juntos. Seu coração ficou meio paralizado, e começou a se arrepender de não ter tomado nenhuma atitude. "maldito Lenoir...", mas, era seu amigo.
Na madrugada anterior, ao receber o aviso dos ataques, pois que não estava sob vigilancia como os demais e seu telefone funcionava, o primeiro pensamento era se ela estava livre e viva. Decidiu na hora que se declararia a ela, a beijaria, viveria com ela até morrer, custasse o que custasse. Desejou ir ao encontro dela, mas, sabia que era impossível.
Quando ouviu a voz dela na porta do porão, não pensou se Clara alí estava ou não: a tomou nos braços e lhe despejou tudo que sentia. E ela lhe perguntara por Lenoir...
Agora a seguia, querendo protegê-la. Percebeu que o parque estava vigiado. Ou iriam prendê-la, ou iriam segui-la. Decidiu arriscar: ou iriam deixá-lo ir, acreditando em sua história, ou iriam prendê-lo, e tentaria descobrir quem mais estava preso, aproveitando a vantagem de sua posição social para comunicar com os de fora.
Passa por ela, sussurra que fique quieta, e corre pela rua. Ignora os gritos dos soldados, tentando atraí-los para si. Não imaginava que iriam atirar tão cedo; ouve o estampido ao mesmo tempo que sente a dor, vai ao chão, tenta se levantar, "fique onde está, querida...", logo é cercado, três soldados o espancam enquanto perguntam coisas que ele não entende. É levantado e consegue caminhar entre o grupo fardado, tentando ver o que se passava com ela.