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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

misseis e mortes

Estive vendo umas cuantas notícias sobre ataques israelenses à Palestina. "Dispararam tantos mísseis...", "destruiram o prédio tal...", e na contagem de mortos, são um, O agente do Hamás em geral, e houveram alguns feridos.
Fico imaginando o estrago que deve ser a explosão de um míssel, imaginemos vários então.

Não é meio pouco que só matem uma pessoa? Ou a Palestina anda meio desabitada, e agora há uma pessoa por edifício? Ou os militantes do Hamás andam sempre sozinhos, e quando os mísseis os atingem, é só eles mesmos?

Che, se uma bala de fuzil já um exagero para matar uma pessoa, imaginemos um míssel, ou os disparos dos carros de combate (sim, tanque de guerra na verdade se chama carro de combate, porque os tanques são os transportadores de combustível, disse meu profe de Historia Militar).

Deixem os palestinos e palestinas viverem, por amor de Allá.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

De pelis

Que se hace?
Para mantener la cabeza fresca mientras escribo la tesina, miro una y otra peli/serie.

Muy interesante: Batman Under the Red Hood. Surge en Gotan un tío muy muy hábil, que sumete a los criminales todos, y luego empieza a matarlos. Por sus habilidades (y luego una prueba de ADN), Batman se dá cuenta que el tío és Jason Todd, el Robin que Coringa había asesinado.
Pues, Todd fué echado en una fuente de juventud, y ahí resucitado.
El final no me gusta. No me gusta esa cosa de Batman, tan sombrio y tan "ay, no puedo ver sangre...". Además, aunque que sea un dibujo animado, las escenas que deberían poner los huesos rotos estan... ufffffffffffffff, que no que no.

Muy mala: Aviso de Tempestade. He avanzado para el final de la peli, que és una tontería.

Y, en algun momento, vuelve la historia de la Tercera Guerra Mundial...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Campesinos e campesinas de Portugal

«Eu sou um trabalhador
Eu sou um trabalhador rural
Que semeia e colhe o pão
Sustento de Portugal

Sustento de Portugal
Que trabalhador sou eu
Que semeia e colhe o pão
Mas esse pão nunca foi meu

Eu sou um trabalhador
Que o trabalho sempre honrou
Mas que em paga apenas come
O pão que o diabo amassou."


Poema de Vicente Rodrigues (1910-1982)

terça-feira, 20 de julho de 2010

E começa a tesina!

Quando o Carnaval Chegar
Chico Buarque

Quem me vê parada, distante, garante que eu não sei sambar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo as pernas de louça da moça e não posso pegar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Há quanto tempo desejo teu beijo molhado de maracujá
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me ofende, humilhando, pisando, pensando que eu vou aturar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

E quem me vê apanhando da vida duvida que eu vá revidar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu vejo a barra do dia surgindo, pedindo pra gente cantar
Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tenho tanta alegria, adiada, abafada, quem dera gritar...

http://www.youtube.com/watch?v=zu2B2z9XRxQ
 

sábado, 17 de julho de 2010

Así es

Vaya. Mi corazón me ha abandonado.
Estaba llevando unas palizas terribles, el pobre, y ha pedido baja por enfermedad.

Desde entonces, no sé de su paradero. Hay rumores de que se há marchado para Antartida. No sé.

De todas formas, estoy en búsqueda de un servicio de pesquisas, a por él.

Hasta que lo encuentre, dejaré todo a cargo de Bárbara Ferrera. Ella pasa mejor que yo.

Corazón mío, vuelve, "no puedo vivir sin tí, no hay manera... no puedo estar sin tí, no hay manera..."

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O centésimo post

PROHIBIDO PROHIBIR
Eladia Blázquez

http://www.youtube.com/watch?v=DW_Lunr9tpg

No se puede prohibir, ni se puede negar
el derecho a vivir, la razón de soñar...
No se puede prohibir, el creer ni el crear,
ni la tierra excluir, ni la luna ocultar...
No se puede prohibir, ni una pisca de amor,
ni se puede eludir que retoñe la flor...
Ni del alma el vibrar, ni del pulso el latir,
ni la vida en su andar... No se puede prohibir.

No se puede prohibir, la elección de pensar
ni se puede impedir, la tormenta en el mar...
No se puede prohibir, que en un vuelo interior
un gorrión al partir, busque un cielo mejor...
No se puede prohibir, el impulso vital,
ni la gota de miel, ni el granito de sal...
Ni las ganas sin par, ni el deseo sin fin
de reir, de llorar, no se puede prohibir.

No se puede prohibir, el color tornasol
de la tarde al morir, en la puesta de sol.
No se puede prohibir, el afán de cantar,
ni el deber de decir lo que no hay que callar...
Sólo el hombre incapaz de entender, de sentir
ha logrado, al final, su grandeza prohibir,
y se niega el sabor y la simple verdad,
de vivir en amor y en total libertad...
Si tuviese el poder de poder decidir...
Dictaría una ley... ¡Es prohibido prohibir!

terça-feira, 6 de julho de 2010

uma tarde longa e mansa...

"numa tarde longa e mansa,
os dois pela estrada vão,
o cão estima a criança
a criança estima o cão.

que delicada aliança
dos seres da criação:
a delicada criança
e o robustíssimo cão.

por isso na tarde mansa
os dois felizes lá vão..."

é só um poema de livros didáticos da segunda série, que por algum mistério ficou gravado na minha mente, e, nessa tarde longa e mansa de Santander, me volta à memória.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ainda na pausa

Jimbo, cariño

Vale, vale. Essa imprensa é uma piada, né mesm? Não venha dizer que é porque não gosto de jornalistas, que quem não gosta é ela.
Mas, olha só, agora a pouco li uma manchete "Até que enfim, Espanha vence na Copa", ué, é só a segunda partida! Eles não perderam nove rodadas, e "até que enfim" ganharam!

Esses dias li o que o Kfouri tinha escrito. O cara só fez propaganda de empresas privadas... nada sobre futebol... "fomos assaltados na Africa do Sul"... ué, esses dias um amigo foi assaltado em Madrid! Tem gente sendo assaltada em Paris, em Londres... aliás, os maiores assaltantes moram justamente nesses lugares incivilizados e obscurantistas citados. Mas, os assaltos de rua também acontecem, que os ladrão-pé-de-chinelo estão por toda parte.

Depois, acompanhando um jogo pelo internet, uma comentarista, falando mal do juiz: "detalhe, o juiz é de Mali, país sem nenhuma tradição no futebol"; que tem a ver? Brasil não tem 'tradição' em corrida espacial, que aquele cara, Fontes, foi fazer no espaço? Que que o Guga tá fazendo com trofeus de Roland Garros (viu, tu nem sabe o que é isso, roland garros!)?

E, tenho me irritado tremendamente com as invencionices, tipo "Dunga pode ser punido...", pelas palabritas que disse pro bobalhão da globo; li a 'noticia', e era só eles jogando lenha pra alguma punição do Dunga, que o cara da Fifa declarou que não sabia de nada... ou seja, não havia noticia nenhuma, só especulação dessa imprensa ridícula.

Venga, vou dormir logo, que depois de a Espanha ter vencido Honduras... vaya, que custava terem empatado no 0x0? Agora, que venham Chile e Suiça, que sejam rolos compressores! Chega de brincadeira.

E dá-lhe Paraguay!!!!!!!!!!!!!!!!

Um abração, e nos vemos na partida de sexta?

Bárbara

domingo, 20 de junho de 2010

Pausa para Copa

Querida Bárbara,

estou com saudades de você.

Copa, copa, copa. Pelo menos, na internet. Porque aqui nesse pedaço de mundo... é uma pobreza futebolística. A TV aberta só passa um jogo ao dia. Nem os bares passam, porque quase ninguém quer ver futebol. Só os turistas...
Eu, apaixonado que sou pelo esporte, gostaria de ver mais jogos. Vi quase nada. Menos mal que Gustavo fez a crônica.
Agora, estou vendo Brasil e Costa do Marfim. Assim-assim.
Gosto muito do Elano, mas, tá mal. Luiz Fabiano não se posiciona. Robinho (arghhh) deixou uma barbinha pra tentar ficar com cara de homem, mas, parece que passou carvão no rosto pra brincar de quadrilha de São João. Ele e Kaká não precisavam estar alí.

Brasil vai ganhando, mas o passe na dianteira... fato básico: a gente não toca a bola pra onde o companheiro/a está, mas, pra onde vai estar no futuro imediato, e é pra lá que esse colega deve ir; por isso se treina junto, pra mover-se em consonancia uns com outros. Mas, o passe sai pra um lado, e cadê o sujeito que devia estar lá?

Viu como eu comecei o parágrafo anterior? Então, bem isso. A seleção é patrimônio do Brasil, logo, patrimônio público de todas e todos brasileiros e brasileiras. Então, deveríamos saber mais e participar da gestão desse patrimônio. Eles são o Brasil na Copa, logo, nos representam. Logo, os dinheiros que são ganhos nessa representação, e os que são gastos, devem passar por nós também.
Quero saber quanto gira no Mundial. Você sabe?

Venga, que pra você não preciso falar de porquê gosto de futebol. Mas, como tem tudo isso da mercantilização, da exploração, dos supersalários, da reificação, das máfias, da alienação, e tals... te conto: adoro um futebol bonito, inteligente, forte. O futebol por ele mesmo, esse que brincamos na rua, em qualquer campinho de terra, de areia, de grama, de pedrinha, com dois chinelos por trave, com uma variação entre um e 30 ou mais jogadores e jogadoras.
Quantos dedos tiramos do lugar, quantas unhas perdidas, quanta pele das solas dos pés trocamos, e tornozelos feridos, e canelas roxas, e coxas marcadas. Quantas vezes perdemos a voz torcendo pelos amigos. E saímos de casa cedo, com água, chicletes, biscoitos, mate, toalhas, pra apoiar o time e passar o dia no torneio.
Enfim, futebol é bom, é bonito, e me agrada muito.

Espero suas notícias! E desejo que sejam boas.

Um grande abraço

Jimbo

quinta-feira, 10 de junho de 2010

32. Sobre Abdul al-Aziz Ben Du'an

Muito cedo na madrugada, ela desperta, sentindo a respiração irregular de Wolf em seu ouvido. Havia dormido muito pouco, mas, tinha que partir.
A proximidade de Wolf, o desejo dele, a fizeram também desejá-lo, mas, "uma pena que já não podemos...", pensa enquanto beija a face do amigo.

Prepara mate e café. Leva a xícara fumegante para Álvaro, que resiste em deixar o rádio amador. Ele a olha interrogativo,
"chegou uma mensagem, pra você..."
Os olhos dela se iluminam...
"que sejam boas notícias!"
"não sei, só diz - 'todo o ministério da crise está bem e atuante' - o que é isso?"
"Bu!", pensa ela, e responde, "uma das equipes... minha família... e...", ela não prossegue, mas, o sorriso não esconde a felicidade com tão pequena nota.
"como precisamos de poco pra ter felicidade, né?", participa Álvaro, sorrindo enquanto sorvia o café.

Abdul al-Aziz Ben Du'an era um palestino, educado e crescido na luta. Para ela, apenas Bu, apelido carinhoso que ele detestava. Ao vê-la, o primeiro pensamento dele havia sido "que linda, pra uma ocidental", mas, o que o havia seduzido era a firmeza da mulher, ainda bastante jovem. A ela, encantou a profundidade do olhar dele, e o sorriso, entre preocupado e divertido.
Conheceram-se em uma tarefa comum, e logo a afinidade política os uniu.

Abdul sabia muito sobre tática e estrategia militar. O fato de ter crescido mudando de lugar em lugar, em um mundo pequeno e poliglota, lhe deu habilidade em aprender línguas, e se divertia com a dificuldade que ela tinha em pronunciar qualquer palavra de seu idioma.
Contribuindo ativamente com a Internacional, especialmente em regiões de conflito deflagrado, Bu viaja muito. Ela, comprometida com sua organização, não o acompanhava.
"eu não tenho a bagagem que você tem para essa tarefa, e não vou ir atrás de ti, se minha organização me necessita..."
Seguiram anos juntos, com as notícias das amantes de Bu não sendo suficientes para arrefecer a paixão dos dois.
Até que ela passou a executar tarefas que exigiam viajar muito mais, e começou a desejar um filho.
Abdul começou a se afastar. A tratava carinhosamente, mas, o medo de que ela engravidasse, como desejava, o fazia evitar o sexo.
Com as viagens frequentes dela, começou a imaginar que poderia estar se encontrando com outros homens, e as críticas ao trabalho dela passaram a ser contínuas e públicas. Mais de uma dúzia de vezes, em corredores ou mesas de bar, tinha visto os olhos dela nublarem com coisas que dizia sobre o trabalho político que ela levava.
Ela olhava o espelho e se perguntava por quê devia suportar aquilo.

Até que ele juntou algumas coisas e partiu. E nunca mais falou com ela.

Agora, mandava a pequena mensagem, que sabia que ela entenderia. Assim, de certa forma, mantinha a distância.
Wolf senta-se ao lado dela, e recebe a cuia de mate. Eles se olham intensamente, de mãos dadas. Álvaro os deixa, compartindo a dor.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

31. De como ainda se pode rir

"Quem seria tolo de dexá endereços por aí?"
"Ninguém esperava que isso tudo explodisse agora, também...", ameniza um.
"Deve ter sido Lenoir...", divaga Clara, "ele sempre foi desligado, relapso...", e ganhando confiança, "aliás, por que a Internacional queria que ele seguisse logo contigo?", e olha para a Mulher.
Uns e outros se olham, estranhando o tom de Clara.
"Porque ele é tradutor?", arrisca alguém.
"Ele é um vendido, isso que é. Por que tá onde tá até hoje? Ele gosta da boa vida, e seria muito capaz de nos vendê pra conservá o que acha que tem... sim, porque aposto como a cabeça dele rola agora, ninguém gosta de traidor", Clara aperta os lábios, e vai pra outra salinha.

A mulher olha o teto, lembrando de Lenoir. Conhecia os defeitos e fraquezas dele, sabia que ele tinha uma ponta de covardia na alma, mas, não era traidor do movimento. E ela tinha asco à covardia... mas...
Ela quebra o silêncio, depois de trocar um olhar entre divertido e magoado com Wolf,
"Gente, a lista que a polícia tem é falsa"
"Como??"
Wolf sorri, ela também, e Wolf continua o relato,
"Nós inventamos essas anotações... um domingo, meio sem o que fazer, resolvemos brincar de inventar pistas falsas pra polícia. Nem imaginávamos que acabaríamos usando"

Um alívio percorre todos e todas. O riso nervoso a princípio, vai se soltando,
"E onde as pistas vão levar eles?"
"Á biblioteca, ao museo e ao cemitério..."
"E como vocês entregaram pra eles?"
"Eu joguei no lixo, quando saí de casa... imaginei que algum agente ia buscá"

As gargalhadas ressoam, misturadas com as dores pelos camaradas perdidos, pelos aprisionados, pela insegurança, e pelo tamanho do desafio que os esperava.

A madrugada avança, e feitos os turnos da guarda, cada qual se acomoda como pode. Ela se estica na manta. Algum tempo depois, Wolf se deita ao seu lado,
"Vou contigo pro norte"
"Não"
"Preciso estar contigo... se for pra morrer, que seja ao teu lado"
"Precisamos de você aqui; você precisa ajudá tirá todo mundo da cadeia, sabe que vão matá eles"
Ela o aconchega no peito, ele a abraça.

Enquanto ela dorme, Wolf permanece insone. Usa o tempo para sentir o cheiro dela, brinca com o cabelo, acaricia o rosto.
E Pedro começa a sentir uma inquietação, enquanto segue montando guarda em casa de Zita.

domingo, 6 de junho de 2010

30. De como transcorre o último encontro no porão

"Camaradas, vamos nos concentrar e ser objetivos, que precisamos ser rápidos"
Os que haviam ficado abraçavam os que voltavam ao porão. A mulher segurava a mão de Clara, que tinha os olhos fundos de muitas horas de choro.

"Esperamos Wolf pra a qualquer momento... esperamos que chegue..."

Pela dúvida, começam a discussão com os presentes.
"Encontraram os corpos de Mario e Beatriz, a filhinha deles está desaparecida"
"Em toda parte o deslocamento está cada vez mais difícil... então a Internacional sugere que você", Alvaro aponta a mulher, "tente seguir com tantos quantos for possível para Cuba, até agora tem sido um ponto de honra pra defesa. O que sabemos é que está arrasada, e o exército estadunidense está indo no combate corpo-a-corpo, pela proximidade, não irão detonar armas nucleares alí..."
"Antes, temos que organizar a resistência aqui", contesta a mulher, "não é uma guerra exatamente entre países, eles querem acabar com as organizações de classe. Mas, quero seguir para Cuba assim que seja possível"
Ela quer perguntar se há noticias de Bu, mas, se cala.

A que está na guarda anuncia a chegada de Wolf, e se reinicia a troca de abraços. Ela fica por último, e os dois amigos se abraçam longamente. "Estava preocupada", ela sussurra, "Eu também..."
Wolf faz os informes: John e Guilhermo, Lenoir, a situação na delegacia, e junta os materiais que traz aos que outros já haviam trazido ao porão.
"Que fazemos?"
"Creio que quase todos e todas estamos no máximo risco agora. Talvez Wolf ainda possa se mover..."
"E Márcia"
"Sairmos das grandes cidades, são mais perigosas; devemos tentar organizar a resistencia a partir do campo e das pequenas cidades"
"Nos dividimos e reagrupamos, formamos brigadas nas regiões. Para sair do país não há previsão, é preciso sorte..."
"Eu vou pro norte", diz a mulher. Conhecia a região, e tinha idéia de o que fazer. De aí, tentaria seguir para Cuba, quando encontrasse Lenoir.

Wolf seria o laço exterior, e contataria Marcia. Todos os demais já se sabiam clandestinos. Ela não concorda,
"Sabem que estamos condenando eles...", Wolf lhe dá um sorriso, tentando passar confiança. Mas, tem medo.

Alguns se acomodam para dormir. Ela e outros se põe a um canto com o mapa da cidade, e o desenho que Wolf fez da delegacia. Precisam soltar os companheiros, sabem que não haverá sobreviventes entre os presos.

No primeiro momento da madrugada, chega Cecilia. Parece uma adolescente, mas, já passa dos 30 anos. Ofegante, senta-se, com os olhos muito abertos,
"Estava num bar, perto do Centro de Inteligencia... eles têm uma lista de endereços... ouvi três deles comentando na calçada... eles têm uma lista, que pegaram nas anotações de um dos nossos..."
"Mas, quem seria burro pra anotar endereços? E deixar que eles peguem?"

Ela e Wolf trocam um olhar.

29. Wolf volta ao porão

Wolf sai do quarto, observando se Joana está por alí, não a encontra, e busca alguma saída alternativa à recepção.
Mas, a recepcionista o vê,
"Senhor João Albuquerque?"
Sem mais remédio, ele se volta para a moça.
"O senhor que estava te visitando deixou isso para você", e entrega um pacote.
Wolf agradece, pega o pacote tentando disfarçar a surpresa, e sai.

Na rua, observa o movimento, e vai pegando ruelas e avenidas, até a casa da avó.

A velhinha o abraça, preocupada e aliviada.
"Ele me deixou isso na recepção do hospital..."
"Ele é ele, mas te conhece, e te respeita..."

Abrem o pacote: dinheiro, papéis de identidade, carimbos, documentos falsos com fotos de Wolf, dois spray de pimenta. Wolf se espanta, a avó não.

"Você pode ter escondido muito bem de quase todo mundo. Ele te conhece, meu filho, e ele respeita tua coragem e..."
"E?"
"E teu amor..."
"Como ele sabe?"
"Ele sabe tudo...", a avó sorri, "e quer que você sobreviva, antes que qualquer coisa."

Deixa o neto comendo, e arruma um pacote com todo o dinheito que tem, mais medicamentos de quase todo tipo.
"Lenoir ligou", a avó nota a sombra nos olhos do neto.
"E está bem?"
"Sim, amanhã vou tentar encontrá-lo."

Na entrada da noite, uma velhinha sai do edifício, apoiada numa bengala, empurrando um carrinho de feira, e toma um táxi.
Quando se crê seguro, com um gesto Wolf pede ao taxista que páre, paga sem dizer nada e desembarca. Em um beco, tira o lenço e o vestido da avó, deixa o carrinho de compras, põe o disfarce na mochila e segue, ainda com a bengala, ao porão.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

28. Do encontro de Joana e Javier

Joana ouve o ruído das chaves, e se atira ao pescoço de Javier, mal este adentra o apartamento.

Era a casa dele, onde se encontravam a algum tempo.

Javier era da equipe de Pedro, e quando os pedidos de grampos telefônicos e pessoal para campana eram negados, eles tomaram pessoalmente o aumento de trabalho. Os dois sabiam que Wolf, de alguma forma, estava implicado em algo. O único indício que tinham eram os encontros deste com a mulher.

O agente decidiu por conta chegar a Wolf através de Joana. Explorou suas carências, as cegueiras de Wolf, a conquistou e a fez sua amante. Com a excusa de que ela desabafe de seu casamento infeliz, passava muito tempo ouvindo sobre Wolf, o que fazia, seu cotidiano, e ela se viu pesquisando sobre o marido, descobrindo que investigações levada, que aulas dava, enfim, começou, sem perceber, a relatar tudo sobre Wolf.

Quando passou tempo para aplacar suas iras sobre Wolf, passou a atentar-se a Javier. Descobriu quem era, e isso não a afastou. Depois de uns meses distanciados pelas mentiras descobertas, Joana o procurou, e retomaram o romance em outro patamar. Agora, ela era informante extra-oficial, sentia-se importante, e a cada dia acumulava mais raiva de Wolf.

Pedro desaprovava o comportamento do colega. Preferia pôr um grampo na casa, do que enrolar-se com a mulher. Apenas com algumas conversas casuais e acompanhando o dia-a-dia, já tinha problemas suficientes com a 'sua' mulher. Também achava que era menos 'digna' a forma como Javier levava a coisa.

Nesse fim de tarde, Joana queria estar novamente nos braços de Javier, e o bilhete da mulher para Wolf  foi quase uma desculpa para atraí-lo.
Enquanto descansavam, ela retoma o assunto,
"que vai fazer? não vai machucar wolf, né?"
"não, não se preocupe."
"mas, queria que vocês fizessem algo... com ela"
"a hora dela vai chegar, você não se preocupe"

Javier se vira de lado e dorme. Joana sonha acordada com o momento em que olharia os olhos de Wolf, e leh daria alguma "boa" notícia.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

27. Da utilizade dos telhados

Dormira poucas horas, mas, as preocupações a despertaram pronto. Banho, café, noticiário. Se veste e parte pra curtir seu último dia.

Gasta pouco, economizando as moedas. Passa no museo, não necessariamente pelas obras, mas, pelas lembranças de outros dias. Passa na biblioteca, onde tem um débito, e caminha vagarosamente entre as estantes; apenas uma bibliotecária estava trabalhando.
"E os outros?"
"Nos deixaram ponto facultativo hoje... acho que logo vão fechar as biblioteca..."

Pára em frente aos tomos de Michel Zevaco. Corre os dedos pela lombada dos livros, conservando o carinho infantil, "gracias", pensa, uma lágrima insiste e corre pelo rosto. Ela seca, sorridente, feliz por ter tido bibliotecas públicas em sua história.

A bibliotecária vai falar com a única pessoa que entrara na biblioteca durante o dia.
"Se você quiser levar alguma coisa hoje, pode levar, eu não registro, depois você traz..."
"Obrigada, quero sim."
Escolhe "Deuses Americanos", de Neil Gaiman. Já o havia lido, mas, era um símbolo de um período feliz em sua vida; e sabia que dificilmente iria devolver à biblioteca. Essa possibilidade a faz trocar de livro, não pode estar carregando esse... tira da estante "Fumaça e Espelhos", a bibliotecária assente, e ela sai, algo contente, apertando o livro no peito.

Volta pra casa de Zita, e espera. Escreve cartas, pensa nas pessoas amadas, toma café. Faz anotações "prá lembrar", como dizia.
Zita chega. Preparam comida, arrumam uma sacola.
"viu o agente?"
"não vi... tava onde?"
"tentando ficar na sombra... lá na frente. Fique atenta, pode ter mais"
"teve notícias?"
"Wolf está a salvo... e só"

Comem em silêncio. Sofrem cada uma à sua maneira.
"eu só precisava saber se estão vivos..."

Se abraçam, há muito que dizer, mas, faltam palavras.
"promete que vai sair daqui?"
"não"
"você sabe que virão atrás de ti"
"não tem problema", Zita tenta sorrir confiante, escondendo o medo.
"minha irmã, obrigada por tudo. Te amo. Quem sabe tomamos uma cerveja daqui uns dias, já no processo socialista?"
"vai em paz, filha, também amo você."
Zita olha a mulher saltando a janela, caminhando sobre o telhado vizinho. Esperava que as estruturas estivessem iguais aos dias em que a mulher e Marcia andavam por alí, brincando e testando as saídas da 'basezita'.

terça-feira, 1 de junho de 2010

26. Sobre como Marcia recupera Tornado

Marcia não saíra de casa. Devia ter ido ao trabalho pela tarde, e então já tinha chegado a noticia da declaração da guerra.
Era secretária em uma grande empresa, e tentava ajudar no que era possível. Conhecera o grupo através de Guilhermo, com quem mantinha uma relação amorosa supostamente secreta, mas da qual praticamente todos e todas sabiam.
Não tinha nenhum apreço especial pelo trabalho que fazia, mas, sabia que dependiam dele para sobreviver. Claro que preferia viver como seu amante, de reunião em reunião, organizando gente, lendo, com liberdade intelectual, entre companheiros e sem chefe. Mas, a sobrevivencia apresenta contas, e ela pagava não só as próprias, nem só as de Guilhermo - as vezes pagava também contas de outras pessoas das organizações sociais.

Nem todos confiavam nela. "burguesinha, não qué dexá essa vida...", dizia alguém; mas, quando faltava o pagamento da gráfica, da passagem, da comida, ela era das primeiras a ser procurada para contribuir.

"Faz um galope por mim", essa tinha sido a frase do início da amizade entre elas, as duas eram apaixonadas por cavalos, e Marcia tinha a oportunidade de praticar equitação com certa frequência, coisa que a mulher não podia. Começaram trocando histórias de cavalgadas, e seguiram, até confiarem totalmente uma na outra, trocando segredos em casa de Zita. Por brincadeira, começaram a chamar o lugar de 'basezita', pequena base.
Uma ajudava a fazer bons documentos, traduzia. Outra ajudava a formação política. As três queriam a felicidade, fosse como fosse.

Tinha passado o dia pensando no que fazer. Manter a vida como se nada estivesse acontecendo? As brigas com Guilhermo, que não queria que ela se aproximasse mais da organização. As conversas com a mulher e com Zita, sobre as tarefas que podia desenvolver.
Um dia depois de tudo ter começado, sem notícias de Guilhermo, enfim, chega um recado. A ligação de Zita, o bilhete do menino. O endereço ela conhecia, e já imagina o que é.

Veste uma roupa velha, pega o carro, se dirige ao haras abandonado, onde estava Tornado.

Olha os cavalos, não estão bem, mas, é o que há. Escolhe quatro, mais Tornado, que se destaca pela saúde, passa uma corda em cada um, monta no cavalo da mulher, e sai no meio da tarde, deixando atrás de si o lugar ermo.

Alguns vizinhos olham a tropinha que segue. Ela escolhe a rota, um caminho asfaltado, e lá se vão os cinco cavalos, toctoctoc, caminhando devagar.
Depois de três horas, chegam ao destino, ao norte. Ela apeia, abraça o velho Pepe, dono do sítio, entrega Tornado e mais três, explicando as orientações que tinha recebido. Deixar os cavalos que a mulher e mais alguém virão buscar.
Pepe serve queijo e suco, ela come, monta do cavalo que tinha separado pra volta, e escolhe um caminho de terra; a todo galope, volta onde tinha deixado o carro.

"pronto, índia véia, tudo pronto"

25. Os outros

O menino, o mais suavemente que pode, pergunta na recepção pelo senhor João Wolfgang Cavalcanti Abulquerque dos Santos. A recepcionista o olha entre desconfiada e divertida,
"o que você é dele?"
"sou amigo..."
"ele não pode receber visitas"
"você pode entregar uma carta pra ele então?"
Ela se rende à diversão, que gracioso o menino.
"posso"

Joana lê o bilhete detidamente, dez vezes. A raiva toma conta, e o faz pedaços. Observa a respiração irregular de Wolf, sente ímpetos de sufocá-lo.
"comunistinha do diabo..."
O bilhete era curto e aparentemente pouco esclarecedor.
"Chaval, td ok. T esperamos, atentxs. Se pt 1 no, mesm batlocal jornadas, mesm hr. TQ."
A única conclusão que Joana chegou era certa, sabia que ela havia escrito. Só ela chamava Wolf de chaval e outras variantes carinhosas, que no começo irritava, e depois passou a ser um ponto de união dos dois.

"vou te machucar, Wolf, vai doer pra você...", e ela aperta os dentes. Wolf abre os olhos.

"o que você fazia na rua aquela hora? onde você ficou esse tempo todo?" ele a olha, parece confuso, e fecha os olhos.
A porta se abre, e entra o avô. Joana o cumprimenta e atende o pedido para que saia. No corredor, liga para Javier, imaginando como atingir Wolf.
"preciso te encontrar"
"tô trabalhando"
"é urgente. Ela escreveu"
"o quê?"
"pra eles se encontrarem no ponto 1, ou no mesmo batlocal jornadas... sabe o que é isso?"
"acho que batlocal é o parque... e o que mais?"
"só. Mas, quero te ver"
"tá bom, em uma hora"

Joana sai do hospital. Javier sai do escritorio da Inteligencia.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

24. De como Lenoir retoma contato Wolf

Acorda assustado, cheio de dores, com o tornozelo inchado e com fome. O sol queimava, e o relógio indicava quase meia tarde.
"que merda fui fazer...", começa a se arrepender da impulsividade com que agira. Tanto tempo levara pensando em como fazer isso, e agora se sentia só e meio desesperado.
"que merda, sair assim e agora posso morrer de sede e inanição"

Levanta-se com apoio do cajado improvisado, caminha por uma hora, e a respiração fica difícil, com a garganta seca. Consegue chegar a uma estrada, e caminha mais lentamente. Mais meia hora, e aponta uma carroça, que pára sem mais, Lenoir se atira dentro dela sem perguntas.
O condutor lhe oferece água, e olha o pé machucado, "tem tratar isso, moço". "Isso é óbvio", pensa Lenoir, e em voz alta, "sim, assim que chegar na próxima cidade... qual é a próxima cidade?".

O carroceiro o olha com desconfiança. Mas, acima de tudo, ajudar o pobre, tão sujo e com um aspecto tão deplorável. "vamos pra minha casa, você pode comer e tomar um banho". O viajante agradece, se recolhe em pensamentos, desejando encontrar também um telefone em funcionamento.

Tem sorte. Desce da carroça com a ajuda do homem, e ao ver o aparelho na sala, pede para usar. Querendo se livrar do imprevisto hóspede, o dono da casa assente imediantamente.
O telefone dela, mudo. "Querida...", como queria ouvir a voz dela. O número dois em importância, John; também mudo. O número três, Wolf, o atende pronto. Tentam se entender por meio de senhas, um pouco complicado, mas, ao final fica entendido que Wolf tentará chegar onde o outro está até o dia seguinte.

"quer que chame um médico?"
"não tenho dinheiro"
"então toma esse remédio, é pra dor, pelo menos ajuda"
"se puder passar a noite aqui, amanhã um amigo vem me buscar"
"te levo pra cidade, e te deixo num hotel. Com essa guerra..."

Lenoir entende o medo do camponês. Fica contente com a ajuda, agradece, e depois de banho tomado e jantar, recebe um pacote de alimentos e os dois seguem de carroça pra cidade. O automóvel fica estacionado, "economizar gasolina, com a guerra..." explica o sábio camponês.

23. Sobre as tarefas de Zita

Deixando a amiga dormir, Zita revê a lista de coisas a arrumar: leite condensado, carimbos, roupas, perucas, plástico, cola, estiletes, mimeógrafo,...
Sai cedo, faz a feira, disfarçadamente entrega um bilhete a um menino; vai ao consultório médico de sempre, enquanto a atendente verifica se há horários, pede licença e usa o telefone do consultório.
"Oi, sou eu. Você vai receber o endereço. Segue pra lá e leva o pacote pro segundo ponto marcado."
Desliga, agradece a atendente, deixando uma consulta marcada pra 30 dias.

A idade fazia de Zita a segurança em pessoa. Quase chegando aos setenta anos, tinha conhecido a mulher em uma festa de bairro. A amizade nasceu por caminhos difíceis, pois a personalidade forte das duas  as fazia digladiarem constantemente. Disso nasceu um respeito mútuo, que se enraizou na sinceridade e na afinidade política.
Zita não era uma militante do cotidiano; aposentada, vivia de orientar leituras aos mais jovens, e muitas vezes acolhia a mulher quanto esta mergulhava em dias tristes. A mais jovem chegava, colocava Orishas no toca-CD, deitava-se no sofá com uma lata de leite condensado, e as vezes contava histórias, outras vezes ouvia as histórias.
Foi assim que Zita soube de Bu, de Lenoir, de Wolf; foi em dias assim que as duas construíram teorias sobre o porvir, e acharam que deviam ir se preparando para uma ofensiva da direita.

A mulher ouviu e aprendeu da vida de Zita. Os amores, as dores, os equívocos, as culpas, os desejos de morte e de vida, e admirava como a avó levava a vida cheia de jovialidade, sem medo do fim.
Zita não tinha filhos, um acidente a havia deixado estéril muito jovem; com isso, deixou o amor de sua vida livre para escolher ficar com ela ou não; cheia de dores, viu seu amor partir chorando por perdê-la, e quando o chamou de volta soube que ele realmente queria estar livre dela. Ele a culpou pelo fim da relação, e nunca mais se falaram.
Desde então ela se apegara aos livros. Teve amantes casuais, feriu e foi ferida, e nunca mais recuperou aquele tipo de felicidade. Conhecer a mulher que agora acolhia como filha fôra um alento. Sofriam juntas, brigavam riam, compartiam a vida dentro do possível.

A abuela chorava ainda seu amor perdido, mas, tinha convicção política como poucos. A clareza da conjuntura fizera dela uma destacada conselheira, e a experiência de vida a fazia uma estrategista como poucos.
Tempos antes as duas tinham planejado esse dia. A senha. As ações. As saídas. Até agora, tudo caminhava relativamente dentro do conforme. Menos a prisão de Wolf.

Depois de feitas as compras, Zita partiu em busca de onde estaria Wolf, descobrindo com relativa facilidade, voltou á feira e entregou outro bilhete a outro menino, com indicação do hospital e de como proceder.

Voltando a casa, observa disfarçadamente o policial que vigia, esbarra com ele e reclama da artrite, dando-lhe um simpático sorriso.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

22. Do descanso de Pedro

Deixando os turnos de vigilância da casa de Zita organizados, Pedro já tinha distribuído dois grupos para verificarem os endereços tirados das anotações dela, e agora podia deixar-se estar em casa.

Não dormia a mais de quarenta e oito horas, e a adrenalina já não era reposta. Olhou-se no espelho, tentando recordar as horas depois da declaração da guerra. Tropas de deslocando, refugiados em toda parte, e ele perdendo e recuperando ‘sua’ mulher.

Está feliz por a ter novamente baixo vigilância. Ela era chave para completar o quadro de vermelhos na região.

Ademais, havia a Legião Estrangeira. Ele tivera acesso ao manifesto da Legião meses antes, e era claramente comunista. Ela tinha ajudado a escrever o manifesto, disso tinha certeza. Todavia, não lograra avançar nas investigações nessa direção. A indecisão sobre o papel de Lenoir, o mapa dos membros ativos das organizações vermelhas, lhe haviam tomado o maior tempo. O resultado eram as várias prisões de primeira hora.

No processo de vigiá-la, ele tivera êxito além do esperado, e conseguira promoções a muito desejadas. Sabia de cor e salteado a ofensiva que o governo lançara contra as organizações populares, e tinha intuído que era só a preparação do caminho da guerra.

Deitado na cama, a imagem dela lhe incomoda. Não era bonita, mas... era forte. Tinha o rosto marcado, alguns vincos se aprofundavam, denunciando, muito mais que a idade, os anos de maus tratos. Tinha um cabelo longo, sempre despenteado, quando muito preso num rabo-de-cavalo. Apesar da idade, tinha as pernas fortes, e adorava vê-la subindo escadas, aos saltos, como se voasse.
Ele tinha reconstruído a biografia dela. Sabia das surras que ela tinha levado e das que tinha dado. Sabia das cicatrizes que a marcavam, que faziam a pele imperfeita.

Com o tempo, começara a respeitá-la. Tinha uma inteligência peculiar, era briguenta, fazia amigos e inimigos quase ao mesmo tempo, era teimosa e convicta. Isso não encaixava...
No sonho, os dois se encontravam, num lugar estranho, que parecia uma barriga de baleia.

Despertou com o rádio dando notícias. O sol já estava se pondo. Banho, barba, arma, distintivo.
Segue pra delegacia, recebe a descompostura do chefe pelo problema com Wolf, agradece mentalmente a situação de guerra, que faz a importância das coisas ser relativa, e toma os relatos da guarda da casa de Zita.

A mulher saíra pela tarde. Comprara alguma coisa sem importância, passeara pelo museu, passara na biblioteca central, sacara pouco dinheiro. Nada importante.

Pedro segue para o posto de guarda. Chama o agente que está na campana.
“Quanto tempo de inatividade?”
“Duas horas, senhor”
“Vá pra casa”

Assume a vigilância. Imagina quando ela irá sair, se irá buscar Tornado, se irá encontrar Lenoir... “onde tá esse maldito?”